27 de agosto de 2013

Meu Penúltimo Amor




De vez em quando, quase sempre, eu chegava em uma fase da minha vida, em que começava a pensar para mim mesmo, em até quando, ou quando e onde iria encontrar um verdadeiro amor. Sei que não é assim que as coisas acontecem, e que a gente tem que ter total paciência para isso. Mas eu imaginava muitas coisas para mim mesmo. Ficava horas pensando de como seria uma vida de casado. De como seria uma vida com uma mulher ao lado. Mais pra frente, ter os nossos filhos. Poder viajar para todo canto do país. Tirar um fim de domingo para ir ao parque com os filhos. Fazer uma festa em família na varanda de casa. Reunir toda a galera para um almoço, um churrasco. Presentear a minha mulher de todas as formas. Sempre tirando um sorriso sincero. Acordar dando beijinhos. Dormir dando abraço. Assim, essas coisas simples.

E toda vez que eu começava a gostar de alguém, eu já imaginava todas essas coisas. Era loucura. E criava para mim mesmo, uma grande ilusão, que na verdade, nunca iria acontecer com aquela pessoa. Por que toda vez que começava a criar esses tipos de coisas em minha mente, dava errado. Sempre soube que criar expectativas para si mesmo, lá pra frente, daria errado. E pensava tudo isso de teimoso. Sou teimoso demais. E dessa vez, deu. Mas isso a gente não tem como controlar. É totalmente automático. Aparece uma pessoa com um sorriso encantador, uma conversa boa, um olhar bonito, um abraço apertado, um jeito de ser, que nos encanta. E a gente fica completamente fora de si, começando a imaginar coisas para nós, que na realidade, nós, nem sabemos se irá acontecer. E a gente fica vivendo aquilo. Fica vivendo só para a pessoa. Desejando só a pessoa. Querendo só a pessoa. Esquecendo de alguns amigos, não quer saber mais de sair. Abre mão de muitas coisas que a gente gostava de fazer, por causa da pessoa. Mas aí é que vem a realidade, e quando você pensa que tudo está numa boa, algo acaba desabrochando. E esse ''algo'' acaba sendo tudo que resta em nós. E o nosso mundo se despedaça. É como se a gente pegasse um pedaço de pedra de barro e começasse a esfregar em nossas mãos. Só vai cair os farelos, os restos, de pouquinho em pouquinho. E quando você olha para suas mãos, já não tem mais nada. Por que já caiu tudo no chão, e sobraram os restos, os farelos. E isso acontece, quando a pessoa que a gente tanto gosta, parti da nossa vida. Vai embora. Sem dizer nada. Pega e vai. Faz as malas, e pega o primeiro vôo e some. E a gente fica ali, desorientado. Perdido. Fazendo de tudo para que as coisas voltem ao normal. Mas nunca mais irá voltar. Porque, quando a gente tem uma pessoa ao lado que nos fazem bem, e que nós fazemos bem à essa pessoa. Ela não se vai, e a gente nunca pensa em ir. E os pensamentos são de, ficar ali, sempre juntos. Grudados com o coração.

Mas esses últimos dias foram tudo diferente. Eu até pensei em ir, em sumir, em desaparecer. Por que já não aguentava mais aquilo. Éramos muitos diferentes. E eu não me sentia bem ao lado. E pensava sempre: Não. Eu tenho que me adaptar. Eu tenho que me acostumar com isso. É algo novo, é algo que pode render. Mas tentei de todas as formas possíveis, tentei e tentei. Vivo tentando. Mas não deu. Você sabe, quando não é pra ser, não vai ser. Nem aqui, nem na China. Quando a gente quer, a gente sempre dá um jeito. Mas quando a gente não quer mais, não tem quem faz a gente querer. Um amigo faz de tudo, a Mãe implora para voltar ao normal. Mas quem manda é o coração. E quando ele não quer, sem chance. É fim. É ter que seguir outro rumo na vida. Um dia ou outro, a gente pode acordar já decidido. Já desgostado daquilo que vivia com a pessoa. Não sei se acontece só comigo, mas enjoo e perco o gosto rápido das coisas. Hoje eu quero, amanhã já quero mais. Um dia quero estar ali com a pessoa, numa boa. Numa praça, ou pegar um cinema, ou assistir um filme juntinho dela. Outro dia, quero ficar só. Observando o jardim, curtindo um vento no rosto, pensando na vida, no coração. Tal dia, quero meus amigos. Ir numa festa, pegar uma praia, escutar uma boa música, beber um porre danado até começar a ficar simpático e falar besteira e tudo que vem em mente. E não dava para dividir todas essas coisas. Estava preso em algo que não era o que eu queria. Sempre fui solto, e sempre quis ter minha total liberdade de cometer os meus crimes. Acho que nasci no tempo errado. Ou esse tempo seja totalmente errado para me prender.

E nesses dias, tinha sido só ela. Tinha. E é ruim quando você quer tanto uma pessoa ao lado, e essa pessoa te deixa. Tudo começa a ficar complicado. Dá uma lerdeza de encarar os dias seguintes. Dá um desânimo de poder caminhar sozinho. Dá um vazio dentro da gente. Tudo é diferente quando a gente perde um colo, um abraço, uma mão que nos segurava. Mas nós sabemos que não podemos nos abalar à isso. Sempre soube que não adianta a gente ficar remando contra a maré. Entrar em desespero. Ficar dando murro em ponta de faca. Se não deu certo, bola pra frente. Se deu certo e está dando certo, abraça, cuida e valorize. Para não perder.

E por incrível que pareça, dessa vez foi tudo ao contrário. Me perdi dela, e ao me perder dela, me perdi dentro de mim mesmo. Dentro do meu próprio ser. Dentro do meu próprio Eu. E já não me encontrava mais. Às vezes ia de encontro comigo mesmo, a roupa preferida, o cabelo raspado, a barba feita, o sorriso simples, o olhar escuro e o coração em desespero. Mas não me achava. Tinha um vazio. E notei que estava faltando algo. Mas sei que para o nosso bem, tinha que ser assim. E tentava de todas as formas achar um modo de poder me distrair e parar de pensar naquilo. E ligava para amigas, e saia para o shopping, e caminhava na praça da cidade, e jogava um futebol no parque com os amigos, e curtia as festas que tinham no bairro próximo de casa. E aproveitava o que tinha que aproveitar.

E chegou um dia que eu estava curado. Já não sentia mais nada. Tinha até esquecido de tudo. O coração estava calmo. Os olhos bonitos. O corpo e a alma leve. Dificilmente passava pela minha cabeça uma vaga lembrança de um aperto de mão, do cheiro do perfume dela. Mas só passava. E percebi que neste dia, acordei curado e limpo. De coração alegre. De sorriso nos olhos. E fui viver minha vida. Fui viver o que tinha para viver. Fui viver o que Eu era. Fui ao encontro de mim novamente, e desta vez consegui me enxergar. Profundamente. E enxergar o meu próprio Eu. E estava lindo. O sorriso era o mesmo, a vontade de enfrentar os dias era enorme. Sem nenhum sentimento ruim guardado dentro de mim. E só tinha coisa boa.

Acordava nestes dias até mais cedo. Preparava aquele café da manhã bem reforçado. Me vestia com a roupa mais leve que tinha. Andava por aí, nas ruas do bairro com um fone de ouvido, ouvindo o álbum do artista preferido. E a gente sabe quando há felicidade dentro de nós. Quando, automaticamente, a gente começa a cantar sozinho. E do nada percebemos, e já logo pensamos que estamos ficando loucos. Mas não é loucura não. É tudo felicidade. E nestes dias, que tanto demorou, acordei assim: Felicíssimo. E de bem comigo mesmo. Sempre.

E hoje digo que foi bom e sei que restará, lá pra frente, num dia qualquer, boas lembranças. Sem nenhum sentimento ruim. Sem nenhum receio. E vai dar saudade. Sempre. E vai ser uma saudade mansa, daquelas que a gente solta um sorriso satisfeito e já logo pensa: Pô, valeu à pena. E com o pensamento de que ainda posso ser feliz. E que ainda posso fazer uma mulher feliz. Só que amei e fui amado em um momento errado. E hoje escrevo do meu penúltimo amor. Por que o último ainda está por vir. E esse último vai virar o primeiro. Que se vier, torço para vir com vontade própria, com fome de amor e com desejo de carinho. E hoje, novamente de coração limpo e curado, doido para amar verdadeiramente. E à espera de quem fazer por merecer. Fico por aqui, abraço leitores.


Fernando Oliveira

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