27 de agosto de 2013

Um dia de Saudade




Em um fim de tarde de um domingo escuro a saudade chegou. Assim, do nada. Sem bater na porta. Sem pedir licença e invadindo-me por inteiro. Não teve como evitar. Essas paradas de sentimentos não tem como evitar. Por mais que a gente tente, por mais que a gente diga para nós mesmo, a saudade vai estar presente de qualquer jeito. Em todos os momentos haverá uma saudade de algo. Uma saudade disso. Uma saudade daquilo. Sentimentos são assim, eles invadem, dominam a gente de uma forma tão insuspeitável, que por mais que a gente tente, não conseguimos controlar. E nessa tarde cinzenta quebrando de tão clara, e um domingo não tão aproveitado, bateu a bendita saudade. Mas era uma saudade triste. Fazia tempo que não sentia uma saudade assim. Nestes dias só estava sentindo aquela saudade feliz. Uma saudade de algo que a gente lembra e automaticamente solta aquele sorriso de que valeu à pena. Uma lembrança boa que fica dentro de nós. Sabe? Mas hoje foi tudo ao contrário. Bateu aquela saudade triste de lembrar coisas desnecessárias. Uma saudade de algo que doeu em mim. 
Dentro do ônibus, voltando pra casa. Ao decorrer do caminho, como de costume, pegava meu livro em mãos e começava ler até chegar em casa. E sempre quando iniciava a leitura, sentia uma sensação tranquila em cada parágrafo, em cada história e todas essas histórias me passavam uma tranquilidade, uma calma no coração, um alívio na alma. Me sentia em outro mundo. Em um mundo que só lá, eu me entenderia. E ler é isso, aprofundar-se dentro de si próprio. Ler é, se ler. Mas neste dia não queria isso. Deu uma preguiça de pegar o livro dentro da bolsa, por puro cansaço mesmo de um domingo acabado. Decidi por um fone de ouvido e ouvir as minhas músicas. Escutar música alivia a alma. Passa um ar de tranquilidade.
Com aquele ônibus lotado, eu sentado no canto da janela, observando o mundo lá fora. Desfrutando aquela natureza linda. Os pássaros voando em coletivo. As pombas em cima dos postes. Um carro passando em alta velocidade com um som no máximo. Um casal sentado na calçada de frente de casa. Uma pessoa gritando. Um parque do outro lado da rua com um monte de crianças vivendo dentro da felicidade. Familiares se divertindo em um restinho de domingo. E eu lá, patético, calado, só observando.
Dei play naquela música preferida. E comecei a me lembrar de tudo. De tudo que se foi. De tudo que já foi ''tudo'' e que hoje só restou lembranças.  Mas até o dia seguinte, me transformei na própria esperança da nostalgia: eu não vivia, eu nadava calmamente num mar de saudade. E pensava comigo mesmo, o que aconteceu naquela época, poderia ser tudo diferente. Tudo. Mas a gente não consegue mudar o nosso destino. Se aconteceu assim, é porque teve que ser assim. Se está sendo assim, devemos respeitar.
E tentava desviar-me de todos esses pensamentos que chegavam na hora errada. Tentava, de qualquer forma, manter a cabeça em outro lugar. Mas não dá, e, rapidamente lembrava. Lembrava dos fins de noites juntos. Dos telefonemas. Da briga em que fazíamos para desligar o telefone. De quem mandava a mensagem por último. De quem mandava a mensagem primeiro. De quem era o primeiro a cobrar um abraço e um beijo do outro. Lembrava-me do começo de tudo, a saudade era demais. A vontade um do outro era imensa. O coração era fraco, e não resistia. Chegávamos a um ponto de amor paranoico que não podiamos mais guardar um pensamento: um telefonava para ao outro, marcando um encontro imediato. E não tinha desculpas. E não tinha nada que nos atrapalhasse. A gente fazia de tudo e sempre dava um jeito de se ver. Eu pensava para mim mesmo: Olha que loucura, nunca fui assim. Nunca me preocupei tanto. Nunca liguei tanto. Nunca implorei tanto para ver alguém. Nunca desmarquei festas com amigos, só para vê-la. Deixava os amigos depois do futebol, só para ficar sentada com ela no portão da sua casa. Saia do colégio de noite e imediantamente ia correndo para os braços dela. E os dias iam passando, essa rotina era boa de sentir. De estar. Quando fui notar, já era amor.
Fiz como pude e como não pude. De todos os jeitos fui levando, algumas vezes amor próprio me faltou, mas eu só queria o seu amor. O seu amor. Certo? Por inúmeras vezes te amava mais do que tudo. Do que tudo mesmo. E pergunto: E você? Fui aceitando todas as suas verdades e anulando as minhas. Fiquei quieto, calado. Fui aceitando e compreendendo tudo contigo. E você meu amor? O quê você fez? Fez porra nenhuma. Jogou-me para o alto. Jogou nosso amorzinho para o alto. E partiu. Sumiu. Deixando comigo, aquela saudade, aquele aperto no coração.
E digo sempre: Esse papo de que a pessoa só dá valor quando perde não é verdade. Na minha opinião, cada um sabe exatamente o que tem ao seu lado. O problema é que ninguém acredita que um dia vá perder. Que um dia aquela pessoa vá partir, assim, do nada. Mas a vida é isso. É um vai e volta. Se Deus tirou, agradeça. Sinal que ai vem coisa melhor.
Eu sei. Vocês sabem. Para um casal se dar bem, ambos tem que ter uma boa sintonia. Se um não quer, não cobre. Dar amor e não receber nada em troca é perca de tempo meu bem. Não adianta insistir em algo que não dá certo. Não adianta fazer a outra pessoa ficar ao seu lado por impulso. Por promessas. Não adianta carregar a pessoa nas costas. Puxar pelos braços. Insistir pra pessoa ficar. Não adianta também, dar uma carona com o coração. O outro tem que estar afim, com fome de amor e carinho, e por vontade própria, querer ir. E permanecer. Ficar. Viver ao seu lado. 
E foi isso que sobrou de mim de um domingo morto. De um domingo acabado. Aquele gosto de vodka na boca, a ressaca torturando, o cansaço da rotina do dia-a-dia e a aquela saudade de sempre. Queria apenas falar de um domingo destruído, de uma saudade triste. E disse todas essas coisas, que acabou sobrando para vocês.
Fernando Oliveira

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